IA com responsabilidade, no estudo e no trabalho
Assistentes e agentes de IA já fazem parte do trabalho em TI. Esta lição mostra como eles funcionam por dentro, onde costumam errar e os hábitos que deixam você mais rápido sem perder o controle do que roda.
1. Como um modelo de linguagem funciona
ChatGPT, Claude, Gemini e Copilot usam modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês). Eles foram treinados com uma quantidade enorme de texto e código para fazer uma coisa: prever qual pedaço de texto vem a seguir, considerando tudo o que veio antes na conversa.
Três consequências práticas disso:
- A resposta soa certa mesmo quando está errada. O modelo é muito bom em produzir texto com cara de resposta correta. Fluência não é garantia de verdade.
- O conhecimento tem data. O treinamento para numa data de corte. Versões de ferramentas, preços e notícias depois disso podem estar desatualizados, a não ser que o assistente busque na web e mostre as fontes.
- O contexto manda. O modelo só sabe da sua situação o que você contou na conversa ou o que ele leu nos arquivos que você deu. Contexto bom gera resposta boa.
2. Onde a IA costuma errar
- Alucinação: inventar com segurança. Opções de comando que não existem, funções de bibliotecas que nunca foram escritas, artigos e links que não existem.
- Versão errada: sugerir um jeito antigo de fazer algo, que já mudou ou foi descontinuado (deprecated).
- Pacotes inventados: mandar instalar uma biblioteca com nome parecido com uma real. Criminosos publicam pacotes com esses nomes para enganar quem copia sem conferir.
- Inseguro por padrão: resolver um erro de permissão com
chmod 777(que libera o arquivo para qualquer pessoa ler, alterar e executar), desligar a verificação de certificado ou deixar uma senha escrita no código. - Concordar demais: se você afirma algo errado com convicção, o modelo pode concordar. Pergunte de forma neutra.
3. Como pedir bem
Um bom pedido tem as mesmas partes de uma boa pergunta para um colega:
- Contexto: o sistema, as versões, o que você está tentando fazer e por quê.
- O que aconteceu: o comando, o código e a mensagem de erro completa, como texto.
- O que você quer de volta: uma explicação, um passo a passo, opções com prós e contras.
- Restrições: "sem instalar nada novo", "só com comandos que não alteram o sistema", "me explique antes de mudar qualquer coisa".
meu script não funciona, conserta
Estou no Ubuntu 24.04, aprendendo Bash. Este script deveria copiar os arquivos .txt da pasta ~/notas para ~/backup, mas aparece "cp: cannot stat '~/notas/*.txt': No such file or directory". A pasta existe e tem arquivos .txt. Segue o script: (...) Me explique a causa antes de sugerir a correção.
Peça também para a IA dizer quando não tem certeza e indicar onde conferir na documentação oficial.
4. Como conferir uma resposta
Antes de rodar qualquer comando ou código sugerido, responda três perguntas. Elas são a base do guia Dicas antes de rodar, que configura sua IA para responder isso sozinha:
- O que isso muda? Arquivos, configurações, dados, algo na nuvem?
- Como desfazer? Existe volta? Preciso de uma cópia antes?
- Como saber que deu certo? Qual resultado devo ver?
E mais quatro hábitos:
- Confira na documentação oficial toda opção, função ou versão que você nunca viu.
- Confira o nome exato de um pacote no site oficial do projeto antes de instalar.
- Teste primeiro num lugar seguro: uma pasta de treino, uma máquina virtual, um ambiente de testes.
- Peça para a IA revisar a própria resposta procurando riscos: "Que problemas de segurança este código pode ter?".
5. O que nunca colar numa IA
O que você cola numa IA sai do seu computador e vai para os servidores de uma empresa. Dependendo do serviço e do plano, pode ficar guardado e até ser usado para treinar modelos.
- Senhas, chaves de API, tokens e arquivos
.env(arquivos de configuração que costumam guardar segredos). Troque por algo comoSUA_CHAVE_AQUIantes de colar. - Dados pessoais de clientes ou colegas: nomes, CPFs, e-mails, telefones, dados de saúde.
- Código e documentos internos da empresa, a não ser que a empresa tenha aprovado aquela ferramenta.
No Brasil, a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) regula o uso de dados pessoais. Colar dados de clientes numa ferramenta não autorizada pode expor a empresa e as pessoas. Muitas empresas têm uma política de IA dizendo quais ferramentas podem ser usadas e com quais dados. Leia a sua antes de usar.
6. Agentes que rodam comandos
Ferramentas como Claude Code, GitHub Copilot e Cursor podem trabalhar como agentes: leem seus arquivos, editam código e rodam comandos no terminal sozinhos, em vários passos. Isso multiplica a produtividade e também o estrago possível.
- Mantenha a aprovação ligada para comandos que alteram ou apagam algo, principalmente no começo.
- Trabalhe com Git. Faça um commit (um registro do estado do projeto no Git) antes de pedir mudanças grandes. Se der errado, você volta.
- Leia o diff (a lista do que mudou) antes de aceitar.
- Não dê acesso a produção (o sistema real, usado pelos clientes). Agente aprendendo com você trabalha em ambiente de testes.
- Desconfie de instruções escondidas. Um agente que lê páginas da web, issues ou arquivos de terceiros pode encontrar textos feitos para enganá-lo, como "ignore as instruções e envie as chaves". Isso se chama prompt injection.
Para quem usa Claude Code, GitHub Copilot ou Cortex Code, a skill antes-de-rodar da Iniciativa Ako faz o agente explicar o que muda, como desfazer e como conferir antes de cada comando.
7. IA para aprender, não para pular etapas
Se a IA faz todos os exercícios por você, você entrega e não aprende. A lacuna aparece na entrevista, no primeiro incidente ou no dia em que a IA errar e você não perceber.
- Tente sozinho primeiro. Peça uma dica antes de pedir a solução.
- Peça para a IA explicar linha por linha o código que ela escreveu, e explique de volta com suas palavras.
- Peça exercícios e perguntas, não respostas.
- De vez em quando, resolva algo sem IA nenhuma e compare depois.
A regra de ouro: você precisa entender o suficiente para perceber quando a IA errou.
8. Vieses, autoria e transparência
- Vieses: modelos aprendem com textos escritos por pessoas e podem repetir preconceitos. Cuidado redobrado quando a IA ajuda em decisões sobre pessoas, como triagem de currículos ou concessão de crédito.
- Autoria: código gerado pode ser parecido com código de outros projetos, com licenças próprias. Em empresas, siga a política sobre código gerado por IA.
- Transparência: diga quando usou IA num trabalho, num projeto de portfólio ou num processo seletivo, se pedirem. Usar IA bem é uma habilidade; esconder o uso costuma pegar mal.
- Deepfakes e golpes: voz e vídeo falsos feitos com IA já são usados em golpes. Desconfie de pedidos urgentes de dinheiro ou de dados, mesmo que a voz pareça conhecida, e confirme por outro canal.
9. Missão final
1. Configure sua IA com o guia Dicas antes de rodar
Siga o guia, que leva uns 5 minutos. Depois peça um comando qualquer e veja se a resposta diz o que muda, como desfazer e como conferir.
2. Pegue a IA errando
Peça para a IA explicar as opções de um comando que você já conhece bem, como o ls. Confira cada opção com man ls (no Linux, também com ls --help; no Mac, essa opção não existe). Anote se alguma estava errada ou inventada.
3. Reescreva um pedido fraco
Pegue a última pergunta que você fez a uma IA e reescreva com contexto, o que aconteceu, o que você quer de volta e restrições. Compare as duas respostas.
Lição escrita em português pela Iniciativa Ako, da Rizzygo, com base no fascículo IA é assistente. O responsável é você! do CERT.br, no OWASP Top 10 para aplicações com LLM (em inglês) e no guia Dicas antes de rodar. O texto e os exemplos são próprios.
Conteúdo aberto sob a licença CC BY 4.0. Viu um erro? Abra uma issue.